Medicina Ocupacional

Afastamentos por transtornos mentais crescem 79% em dois anos

29 de janeiro de 2026

*Fonte: Jornal O Estado de São Paulo

Dados do INSS mostram que o número de licenças passou de 219,8 mil em 2023 para 393,6 mil em 2025; transtornos depressivos e ansiosos respondem por 86% dos casos.

Em 2023, foram registrados 219,8 mil afastamentos do trabalho. Em 2025, esse número chegou a 393,6 mil, sendo que 86% dos casos estão relacionados a transtornos depressivos e ansiosos.

Crescimento acelerado dos afastamentos

O Brasil registrou um avanço expressivo no número de trabalhadores afastados por transtornos mentais. Em apenas dois anos, a alta foi de pelo menos 79%, impulsionada pela explosão de casos de ansiedade e depressão. Os dados fazem parte de um levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), divulgado ontem, com base em informações do INSS.

O total de licenças concedidas passou de 219,8 mil em 2023 para 393,6 mil em 2025, considerando dados até novembro. Mesmo sem o fechamento de dezembro, o crescimento já alcança 79,1%.

Ansiedade e depressão concentram a maioria dos casos

Os transtornos depressivos e ansiosos responderam por 86% de todos os afastamentos registrados no ano passado. As licenças relacionadas à ansiedade cresceram 92% no período, saltando de 81.874 para 157.235.

Já os afastamentos por episódios depressivos e por transtorno depressivo recorrente aumentaram 71%, passando de 106.796 em 2023 para 182.937 nos primeiros 11 meses de 2025. O volume equivale, em média, a um trabalhador afastado por depressão a cada três minutos.

Burnout triplica e reforça alerta no ambiente de trabalho

Os afastamentos motivados pela síndrome de burnout, caracterizada por esgotamento extremo diretamente associado às condições de trabalho, mais do que triplicaram no intervalo analisado. O número saltou de 1.760 registros em 2023 para 6.985 em 2025.

Números subestimam a realidade brasileira

O presidente da ANAMT, Francisco Cortes Fernandes, destaca que os dados consideram apenas licenças superiores a 15 dias, quando o benefício passa a ser pago pelo INSS, e abrangem exclusivamente trabalhadores formais vinculados à Previdência Social.

Segundo ele, o total de brasileiros afetados por problemas de saúde mental deve ser significativamente maior. O levantamento reflete apenas os quadros mais graves e de trabalhadores formais, que representam entre 45 milhões e 50 milhões de pessoas. A situação dos trabalhadores informais, afirma, pode ser ainda mais preocupante.

Impacto financeiro para a Previdência

Além das consequências sociais, o avanço dos transtornos mentais tem reflexos econômicos relevantes. Em 2024, os gastos do INSS com benefícios concedidos por esse tipo de afastamento somaram R$ 954 milhões.

Pressão, metas e insegurança no emprego

De acordo com a ANAMT, os transtornos de ansiedade se manifestam por medo excessivo, preocupação persistente e sensação constante de ameaça, mesmo na ausência de risco real. No ambiente de trabalho, estão frequentemente associados a sobrecarga, pressão por resultados, jornadas extensas e baixa previsibilidade das rotinas.

A depressão, por sua vez, costuma apresentar sinais como humor persistentemente deprimido, perda de interesse ou prazer nas atividades, fadiga intensa e prejuízo funcional significativo. No contexto profissional, o quadro compromete a concentração, a tomada de decisões e a manutenção do ritmo de trabalho.

Para Fernandes, a intensificação da cobrança por metas, somada a fatores sociais e pessoais, ajuda a explicar o crescimento expressivo dos afastamentos. Ele ressalta que os transtornos mentais têm origem multifatorial, envolvendo tanto aspectos do trabalho quanto da vida fora dele, que frequentemente coexistem. Modelos de remuneração vinculados a metas, segundo o médico, tendem a contribuir para o adoecimento dos trabalhadores.

Outro fator apontado é o medo da perda do emprego diante do avanço de tecnologias, como a inteligência artificial, o que amplia os níveis de ansiedade entre os profissionais.

Mudanças no pós-pandemia ampliam o adoecimento mental

A psicóloga Aline Wolff, especialista em alto desempenho e pesquisadora de performance sustentável, avalia que as transformações no ambiente de trabalho após a pandemia também contribuem para o aumento do adoecimento mental. Ela destaca a diluição das fronteiras entre vida pessoal e profissional e a presença constante da tecnologia no cotidiano.

Segundo a especialista, os cenários social, econômico e político também reforçam um contexto de incertezas, que favorece o sofrimento psíquico.

Mulheres lideram os afastamentos por saúde mental

A análise por gênero revela que as mulheres concentram a maioria dos afastamentos concedidos. Do total de licenças relacionadas a transtornos mentais, 68% foram destinadas a trabalhadoras.

Para Aline Wolff, o dado reflete desigualdades ainda persistentes, como a sobrecarga feminina, que acumula responsabilidades profissionais, cuidados com os filhos e tarefas domésticas. Além disso, mulheres integram grupos que historicamente precisam se esforçar mais para alcançar reconhecimento e espaço no mercado de trabalho.

Faixa etária mais atingida está entre 40 e 49 anos

No recorte por idade, o maior número de licenças relacionadas a problemas de saúde mental foi registrado entre trabalhadores de 40 a 49 anos, com cerca de 125 mil afastamentos.

Empresas precisam atuar na prevenção

Diante do cenário preocupante, o presidente da ANAMT defende que as empresas estejam realmente atentas aos fatores que aumentam o risco de adoecimento psíquico, como metas incompatíveis, assédio moral e excesso de demandas.

Ele também ressalta a importância do cumprimento das atualizações da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a exigir a gestão dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Segundo Fernandes, iniciativas pontuais de bem-estar não são suficientes, sendo necessárias mudanças estruturais e correções de práticas organizacionais.

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Escuta qualificada e segurança psicológica

Fernandes incentiva os trabalhadores a enxergarem a Medicina do Trabalho não apenas como responsável por exames periódicos, mas como um espaço de escuta e mediação. Para ele, o médico do trabalho pode atuar como elo entre empregado e liderança, facilitando o diálogo e a busca por melhorias.

Aline Wolff reforça que esses espaços de escuta precisam ser conduzidos por profissionais qualificados e oferecer segurança psicológica. Segundo a especialista, o trabalhador só se sentirá confortável para se abrir se tiver a garantia de que não será julgado ou rotulado como fraco ou descomprometido. Para isso, conclui, é fundamental investir também na capacitação das lideranças para promover ambientes de trabalho mais saudáveis e seguros do ponto de vista emocional.

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