Notícias do Departamento de Economia e Tributação

A crise do grande varejo brasileiro em um ambiente de incertezas

20 de agosto de 2026

A crise enfrentada por parte do grande varejo brasileiro não pode ser explicada por um único fator. Há, evidentemente, diferenças importantes entre empresas, relacionadas à estrutura financeira, ao nível de endividamento, ao modelo de negócio, à política de expansão, à gestão de estoques, à produtividade e à capacidade de adaptação às transformações do consumo. Esses elementos ajudam a explicar por que companhias submetidas às mesmas condições econômicas apresentam resultados diferentes. Mas reconhecer essa dimensão não significa ignorar um fato igualmente decisivo: o ambiente macroeconômico e regulatório atual se tornou particularmente adverso para o comércio.

Juros elevados, crédito caro e mais seletivo atingem o varejo pelos dois lados da operação: empresas e consumidores. Do lado empresarial, o custo financeiro afeta diretamente a estrutura de capital e o fluxo de caixa, encarecendo operações de capital de giro, antecipação de recebíveis, financiamento de estoques, expansão das lojas e aquisição de equipamentos e outros bens. Em 2026, a taxa média anual das operações de crédito com recursos livres para PJs chegou a ultrapassar 25%, segundo dados do Banco Central, o maior patamar desde 2017. Em um setor que frequentemente precisa recorrer ao crédito para financiar a sua operação, a manutenção dos juros em níveis elevados reduz a margem de manobra financeira e torna mais custosas decisões que, em um ambiente de juros menores, poderiam ser realizadas com maior facilidade.

Do lado da demanda, o mesmo crédito caro reduz a capacidade de compra das famílias, sobretudo em produtos de maior valor, normalmente adquiridos por meio de financiamento ou parcelamento. O varejo, portanto, é duplamente impactado: paga mais caro para financiar sua própria operação justamente quando encontra um consumidor com menor capacidade de se financiar. É uma combinação particularmente adversa porque pressiona simultaneamente o custo financeiro das empresas e o volume potencial de vendas.

Dívidas e inadimplências das famílias

A dimensão dessa pressão sobre o consumidor ajuda a compreender a segunda ponta desse problema. Segundo a CNC, 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em julho, o maior patamar da série histórica, enquanto quase 30% estavam inadimplentes, ou seja, tinham dívidas em atraso. Em um orçamento doméstico já comprometido, a necessidade de priorizar despesas essenciais reduz o espaço para compras consideradas adiáveis.

Esse quadro produz efeitos diferentes entre os segmentos do comércio. Os mais expostos tendem a ser aqueles que comercializam produtos de maior valor unitário e cuja aquisição pode ser postergada, como eletrodomésticos, eletrônicos, móveis, artigos para o lar e parte do vestuário e calçados. Quando o orçamento doméstico está pressionado, esses produtos não apenas podem ser retirados temporariamente da cesta de consumo, como frequentemente dependem de crédito ou parcelamento para serem adquiridos. Assim, o mesmo ambiente de juros elevados atua simultaneamente sobre a demanda e sobre as condições de financiamento da compra.

Há ainda uma característica financeira importante nesses segmentos. Produtos de maior valor e menor frequência de compra costumam apresentar giro de estoque mais lento. Para o varejista, isso significa mais capital imobilizado em mercadorias, aumentando o custo de carregamento dos estoques justamente quando o custo do dinheiro está elevado. Estoques mais caros e de menor giro também tornam mais relevante a eficiência de armazenagem, logística, reposição e formação de preços.

Dificuldades de arcar com suas obrigações

A dimensão dessa dificuldade também mostra que não se trata exclusivamente de um problema das grandes redes. Dados recentes da Serasa Experian indicam que mais de 9,1 milhões de CNPJs estavam inadimplentes no Brasil em junho, o maior número da série iniciada em 2016, somando R$ 232,9 bilhões em dívidas. Desse universo, quase 8,7 milhões eram micro e pequenas empresas, responsáveis por R$ 201,4 bilhões em dívidas negativadas. Em média, cada empresa inadimplente acumulava cerca de sete dívidas, com débito médio total de aproximadamente R$ 23,2 mil. O comércio responde por cerca de um terço das micro e pequenas empresas inadimplentes, também no maior volume da série. A amplitude desses números reforça a existência de um componente conjuntural de alcance muito mais amplo, que atravessa portes e modelos de negócio.

Bets

O consumidor também passou a direcionar parte de sua renda para destinos que competem com o consumo tradicional. Um exemplo particularmente relevante é a expansão das apostas online. Segundo o Comsefaz, as famílias brasileiras tiveram uma perda líquida de R$ 62,5 bilhões com as bets em 2025, valor correspondente à diferença entre os recursos enviados às plataformas e os valores devolvidos em prêmios. O dado não significa que esses recursos seriam integralmente transformados em compras no comércio caso as apostas não existissem, mas, diante de um orçamento familiar fortemente comprometido, ajuda a dimensionar a disputa cada vez maior pela espremida renda disponível.

“Taxa das Blusinhas”

O grande varejo enfrenta também uma camada adicional de desafios. A concorrência deixou de ser predominantemente doméstica. Plataformas internacionais ampliaram a oferta ao consumidor brasileiro e passaram a disputar diretamente parcelas do mercado nacional, operando com estruturas de custos, tributação e logística diferentes das empresas instaladas no país. Trata-se, na avaliação do comércio nacional, de uma concorrência desleal, especialmente quando as condições tributárias e regulatórias não são equivalentes. O fim da chamada “taxa das blusinhas”, com a MP 1.357/26, voltou a acrescentar dificuldades às condições de competição. Para o comércio doméstico, não se trata apenas de vender mais ou menos, mas de competir em um mercado no qual as condições de operação entre os participantes são diferentes.

Discussão da redução da jornada e o fim da escala 6×1

A incerteza também aparece no campo trabalhista. A discussão sobre a redução da jornada e o fim da escala 6×1 produz impactos relevantes sobre a organização das operações, especialmente em um setor intensivo em mão de obra e que funciona durante fins de semana e períodos prolongados. É evidente que a redução da jornada e ao fim da escala 6×1 nos termos aprovados pela Câmara dos Deputados impactará significativamente os custos e a organização do trabalho em um período muito exíguo. Ao mesmo tempo, a discussão em curso no Senado amplia a imprevisibilidade, especialmente quanto ao formato definitivo da proposta e ao período de transição. Para as empresas, a possibilidade de mudanças relevantes nos custos trabalhistas, somada à dificuldade de antecipar quando e como essas alterações serão implementadas, complica a elaboração de projeções, ajustes em equipes, mudança de turnos, escalas, horários de funcionamento e investimentos.

Incertezas tributária

Ao mesmo tempo, o varejo ingressa em uma profunda transição tributária. A implementação da reforma tributária exige adaptações em sistemas, documentos fiscais, formação de preços, cadastro de produtos, relacionamento com fornecedores e gestão dos créditos tributários. A construção dos sistemas necessários à operação do IBS e da CBS está em curso, envolvendo mudanças nos documentos fiscais eletrônicos e nos processos de apuração. Mesmo que seus efeitos finais sobre a carga tributária variem conforme a empresa e o segmento, a transição representa custos de adaptação e exige decisões em um ambiente de regras que ainda estão sendo regulamentadas.

É importante, portanto, distinguir a conjuntura enfrentada pelo setor das dificuldades específicas de cada empresa. O ambiente de juros, crédito, consumo, concorrência e regulação estabelece um grau de dificuldade comum ao mercado, mas seus efeitos não são homogêneos: estrutura financeira, nível de alavancagem, modelo de negócio, produtividade e capacidade de geração e preservação de caixa determinam o quanto cada companhia consegue absorver esses choques. A conjuntura não explica sozinha o desempenho de uma empresa, mas pode funcionar como um teste de resistência, reduzindo a margem de erro, encarecendo decisões e aumentando a necessidade de liquidez.

O grande varejo brasileiro enfrenta, assim, um duplo desafio. Precisa atravessar um ambiente macroeconômico marcado por juros elevados, crédito restrito e consumidores mais cautelosos, ao mesmo tempo em que se adapta a mudanças estruturais e regulatórias que alteram as condições de competição, trabalho e tributação. Por isso, o momento atual pode ser compreendido não apenas como uma crise de vendas, mas também como uma crise de previsibilidade. Empresas precisam decidir sobre preços, estoques, investimentos, contratação e expansão enquanto diversas variáveis fundamentais para o negócio estão simultaneamente em transformação.

A recuperação do varejo, portanto, depende tanto da capacidade das empresas de se adaptar quanto de um ambiente econômico mais favorável à atividade produtiva. A redução sustentável dos juros (que passa também por uma política fiscal mais responsável), a melhora das condições de crédito, a recuperação da capacidade de consumo das famílias, maior equilíbrio competitivo com as plataformas internacionais e segurança regulatória são elementos importantes para a retomada dos investimentos, do emprego e das vendas. Não se trata de escolher entre uma explicação conjuntural e uma explicação empresarial, mas de reconhecer que as condições macroeconômicas definem o grau de dificuldade enfrentado pelo setor, enquanto as características de cada empresa determinam sua capacidade de responder a esse ambiente.

Departamento de Economia e Tributação

Dentro de sua estrutura operacional, o Sindilojas-SP possui o Departamento de Economia e Tributação, objetivando levar ao empresário do comércio varejista um rol de informações relacionadas à conjuntura macroeconômica, imprimindo sobre estas as particularidades do setor do varejo.

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