O que o varejo necessita do novo governo
Entre a pressão sobre as vendas, o crédito caro e duas grandes transformações estruturais, o comércio precisa de condições para subsistir, investir e crescer
A forte queda das ações das principais empresas varejistas brasileiras na Bolsa, depois do resultado do segundo turno das eleições presidenciais, trouxe à tona uma preocupação que vai muito além do mercado financeiro. A reação dos investidores mostra o quanto o setor está sensível às expectativas em relação aos rumos da economia e às condições que o novo governo vai criar para as empresas.
Para nós, do comércio, a questão não é simplesmente quem ganhou a eleição. O que realmente importa é saber em que ambiente os empresários vão trabalhar, investir, contratar e crescer nos próximos anos. E isso ganha ainda mais importância diante da expectativa de uma desaceleração da economia em 2027.
Cenário de dificuldades
O varejo já atravessa um 2026 difícil. As vendas perderam força, o saldo de empregos está negativo e o crédito continua caro. Do outro lado do balcão, o consumidor está mais cauteloso e pensa duas vezes antes de gastar. E o empresário, enquanto isso, precisa fazer malabarismo para preservar suas margens, controlar despesas e manter o negócio funcionando.
É por isso que a responsabilidade fiscal não pode ser tratada como uma preocupação apenas de investidores ou do mercado financeiro. Ela tem impacto direto na vida das empresas e das pessoas. Quando aumentam as dúvidas sobre as contas públicas, aumentam também as pressões sobre os juros. E juros altos significam crédito mais caro para o consumidor e para o empresário, menos consumo e menos investimentos.
Mudanças estruturais e seus desafios
Mas o cenário que temos pela frente não envolve apenas a política econômica. O varejo está passando, ao mesmo tempo, por duas mudanças estruturais importantes: a implantação da reforma tributária e a discussão sobre novas regras para a jornada de trabalho, incluindo a redução da carga horária semanal e o fim da escala 6×1.
A reforma tributária pode, no futuro, tornar o sistema mais simples. Mas, até lá, teremos um longo período de adaptação. As empresas terão de investir em tecnologia, rever processos, adequar sistemas de gestão, reorganizar procedimentos fiscais e, principalmente, entender como tudo isso vai impactar seus preços e seu fluxo de caixa. A convivência entre regras antigas e novas vai exigir bastante planejamento.
A mudança na jornada de trabalho também vai exigir uma grande adaptação. Escalas, turnos e equipes precisarão ser reorganizados. Dependendo do estabelecimento, manter o mesmo horário de funcionamento poderá significar contratar mais pessoas ou encontrar novas formas de distribuir as horas trabalhadas.
Preocupação com os pequenos negócios
E aqui existe uma preocupação especial com os pequenos negócios. Uma grande empresa pode ter mais estrutura para absorver mudanças e custos adicionais. Para o pequeno lojista, que muitas vezes trabalha com uma equipe enxuta e margens apertadas, qualquer aumento de custo ou dificuldade operacional pesa muito mais.
O problema é que todas essas adaptações estão chegando justamente num momento em que uma parte importante do comércio ainda luta para recuperar vendas, equilibrar as contas, financiar suas operações e manter empregos.
Previsibilidade é a palavra de ordem
Por isso, acredito que previsibilidade seja hoje uma das palavras mais importantes para o setor.
O empresário precisa saber quais serão as regras, quando elas entrarão em vigor e quanto vai custar para se adaptar. Precisa de segurança jurídica, de prazos razoáveis e, principalmente, de diálogo. As entidades que representam o setor precisam ser ouvidas antes que decisões com grande impacto sobre as empresas sejam tomadas.
Da mesma forma, precisamos de um ambiente econômico que permita a redução sustentável dos juros, a estabilidade dos preços e a retomada dos investimentos. E isso passa, inevitavelmente, pelo equilíbrio das contas públicas. Precisamos, no mínimo, enxergar uma trajetória de estabilização da dívida pública em relação ao nosso PIB.
Não se trata de uma discussão distante da realidade de quem está atrás do balcão. Quando o crédito fica caro, o consumidor compra menos. Quando os custos aumentam, o lojista investe menos. Quando não há segurança sobre as regras, o empresário adia decisões. E, quando tudo isso acontece ao mesmo tempo, a economia perde dinamismo.
Importância do comércio na roda da economia
O comércio varejista tem uma importância enorme nesse processo. Somos responsáveis por movimentar renda, gerar empregos e manter vivas as economias dos bairros e das cidades. Quando o comércio vai bem, toda uma cadeia se movimenta: fornecedores, prestadores de serviços, trabalhadores e consumidores.
O novo governo precisa compreender que o comércio não demanda apenas sinais de confiança, mas condições concretas para crescer.
Precisamos de responsabilidade fiscal, crédito a custos mais razoáveis, segurança jurídica e regras previsíveis. Precisamos também de diálogo para que as grandes transformações que estão sendo implementadas possam acontecer sem colocar em risco a sobrevivência das empresas.
O varejo brasileiro já mostrou muitas vezes que sabe se adaptar. O empresário brasileiro é criativo, trabalha duro e encontra caminhos mesmo nos momentos mais difíceis. Mas ninguém consegue fazer isso indefinidamente se, ao mesmo tempo, precisa enfrentar juros altos, custos crescentes, queda nas vendas e mudanças profundas nas regras do jogo.
É hora, portanto, de criar um ambiente que permita ao comércio fazer aquilo que ele sabe fazer: investir, gerar empregos, movimentar a economia e crescer.
Aldo Macri
Presidente do Sindilojas-SP
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