Gestão

O novo mapa de riscos do varejo: como se preparar?

9 de junho de 2026

A rotina de quem empreende no varejo está longe de ser simples. Todos os dias, gestores precisam se preocupar com a atração e fidelização de clientes, treinamento e liderança de equipes, controle de estoques, negociação com fornecedores, definição de preços, acompanhamento das vendas, gestão financeira, recebimentos, pagamentos e inúmeras outras demandas operacionais.

Esse conjunto de responsabilidades já seria suficiente para ocupar integralmente a agenda de qualquer empreendedor. Porém, o cenário econômico atual exige algo a mais. Em um ambiente marcado por rápidas mudanças regulatórias, tecnológicas e comportamentais, limitar-se à administração da operação deixou de ser uma opção. O empresário precisa encontrar tempo para olhar além do balcão, acompanhar tendências e avaliar fatores externos que podem alterar significativamente seus custos, sua produtividade e seu potencial de crescimento nos próximos anos.

Mais do que monitorar esses movimentos, o momento exige preparação. Em diversos temas que afetam diretamente o varejo, o gestor não deveria apenas esperar definições ou regulamentações futuras. É necessário começar desde já a implantar ações, testar alternativas, construir cenários e mensurar possíveis impactos. Entre os assuntos que merecem atenção especial estão os seguintes:

Possível redução da jornada de trabalho e mudanças na escala 6×1

A discussão sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho ganhou espaço no debate nacional e pode representar uma das maiores transformações do mercado de trabalho das últimas décadas. Para um setor intensivo em mão de obra como o varejo, mudanças dessa natureza produzirão efeitos relevantes sobre custos e produtividade.

Riscos: Aumento da folha de pagamento, necessidade de contratação de mais funcionários para cobrir horários de funcionamento, dificuldade de organização de escalas e possível pressão sobre preços.

O que fazer agora: Mapear funções críticas, calcular o impacto financeiro de diferentes modelos de jornada (42 horas e 40 horas semanais), testar escalas alternativas (5×2 e 12×36), revisar processos operacionais e acompanhar indicadores de produtividade por colaborador e por loja. O contador pode ajudar muito nestas simulações.

Aplicação da NR-1 e os novos desafios para as empresas

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 amplia as responsabilidades empresariais na gestão dos riscos ocupacionais, incluindo fatores psicossociais ligados ao ambiente de trabalho, como estresse, sobrecarga e aspectos relacionados à saúde mental.

Riscos: Aumento de custos de adequação, necessidade de consultorias especializadas e crescimento das exigências documentais.

O que fazer agora: Revisar políticas internas, promover treinamentos para lideranças, criar mecanismos de escuta dos colaboradores, documentar procedimentos e buscar orientação técnica para adequação gradual às novas exigências. O foco da empresa deve estar na aplicação de método que possibilite provas negativas do nexo causal entre o ambiente laboral e possíveis doença psicossociais.

Defasagem dos limites do Simples Nacional

Há anos os limites de faturamento do Simples Nacional (e MEI) permanecem praticamente inalterados, apesar da inflação acumulada e do crescimento natural das empresas. O resultado é que muitos pequenos negócios acabam sendo penalizados justamente quando conseguem expandir suas operações.

Oportunidades: Aperfeiçoamento do planejamento tributário e fortalecimento da gestão financeira.

O que fazer agora: Projetar o faturamento para os próximos anos, simular diferentes enquadramentos tributários, avaliar margens de lucro e construir planos de crescimento considerando cenários alternativos.

A redução da tributação sobre importações e o avanço das plataformas internacionais

A recente diminuição da tributação incidente sobre compras internacionais de pequeno valor (“taxa das blusinhas”) reacendeu uma preocupação antiga do varejo brasileiro: a crescente concorrência das plataformas estrangeiras de comércio eletrônico. Embora a ampliação das opções para os consumidores seja positiva, o setor produtivo nacional alerta para o risco de aprofundamento de uma disputa que ocorre sob condições bastante desiguais.

Enquanto empresas instaladas no Brasil arcam com uma elevada carga tributária, custos trabalhistas, exigências regulatórias, despesas logísticas e obrigações de defesa do consumidor, parte dos concorrentes internacionais consegue operar com estruturas de custos significativamente menores. A consequência pode ser um aumento da pressão competitiva justamente sobre os segmentos mais expostos à concorrência de produtos importados.

Riscos: Perda de vendas para plataformas internacionais, redução das margens de lucro, maior dificuldade para repassar custos aos preços finais e enfraquecimento da competitividade de empresas que produzem, distribuem ou comercializam produtos no mercado brasileiro.

O que fazer agora: Monitorar preços, fortalecer a presença digital da empresa, investir em integração entre canais físicos e online, revisar o mix de produtos, ampliar estratégias de fidelização e desenvolver diferenciais competitivos que permitam disputar mercado além da variável “preço”. Devemos reforçar atributos que dificilmente podem ser replicados por operadores estrangeiros, como atendimento personalizado, entrega rápida, relacionamento próximo com o consumidor, serviços de pós-venda, trocas simplificadas e maior confiança na compra.

O impacto das apostas online sobre o consumo das famílias

As apostas esportivas e jogos online passaram a disputar uma fatia cada vez maior do orçamento das famílias brasileiras. Embora ainda seja difícil mensurar com precisão os efeitos sobre cada segmento do varejo, diversos estudos e indicadores já apontam que parte da renda que antes seria destinada ao consumo de bens e serviços está sendo direcionada para as plataformas de apostas.

O impacto tende a ser mais relevante em setores que dependem de compras por impulso ou de renda disponível, como vestuário, calçados, eletroeletrônicos, móveis, lazer e outros bens não essenciais. Além disso, a volatilidade financeira gerada pelas apostas pode provocar mudanças na frequência de compras e no valor gasto pelos consumidores ao longo do mês.

Riscos: Redução da renda disponível para consumo, aumento da sensibilidade aos preços, menor frequência de compras e enfraquecimento da demanda em segmentos mais dependentes de gastos não essenciais.

O que fazer agora: Acompanhar com mais frequência os indicadores de vendas e fluxo de clientes, monitorando possíveis alterações no comportamento de compra ao longo do mês. Investir em programas de fidelização e relacionamento para aumentar a recorrência das compras. Reforçar ações promocionais em períodos tradicionalmente mais fracos. Revisar o mix de produtos, priorizando itens com maior percepção de valor e que atendam necessidades mais essenciais do público-alvo.

Postura estratégica

O Sindilojas-SP reforça: O varejo sempre conviveu com desafios, mas a velocidade das transformações atuais exige uma postura mais estratégica dos empresários. O gestor que dedica toda a sua atenção apenas às questões internas corre o risco de ser surpreendido por mudanças que já estão sendo discutidas hoje e que podem impactar diretamente seus resultados amanhã. Em muitos casos, esperar a regulamentação definitiva ou a consolidação dos cenários pode significar perder tempo precioso de adaptação. Mais do que acompanhar o debate, é hora de planejar, testar, simular e preparar a empresa para diferentes possibilidades. Afinal, competitividade não depende apenas de administrar bem o presente, mas principalmente de estar pronto também para o futuro.

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